Pedro Levi Bismark – Livro “O Mito de Israel” e “O Mito Nazista” de P.L.Labarthe e J.L.Nancy

«É preciso pensar Israel tal como Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy pensaram o nazismo, a partir do mito. Mas dizer isto não chega: é preciso interpelar a funcionalidade que o mito detém na política moderna. E, no entanto, também isto é insuficiente: é preciso pensar o mito como a forma através da qual o Ocidente se revela a si mesmo. […] Aquilo que Gaza nos volta a recordar de forma trágica é que o genocídio não é um mero acidente da história ou a excepção irracional que prova o humanismo do regime político do capital, mas um elemento constitutivo da história do Ocidente.»
Pedro Levi Bismarck
• O Mito de Israel não é apenas um livro sobre Israel, sobre o modo como este falsificou a história para legitimar a fabricação de um Estado etno-religioso supremacista judaico e para legitimar um genocídio do povo palestiniano que ocorre há quase 80 anos. É um livro sobre o Ocidente: sobre o seu colonialismo, sobre o seu imperialismo, sobre o seu profundo racismo, sobre as figuras conceptuais que este inventou — civilização, progresso, universalidade, humanismo — capazes de dissimularem o exercício permanente da sua violência, da sua política de Morte. Auschwitz e Gaza estão próximos, demasiado próximos: filhos da mesma história colonial e do mesmo horror imperial.
E, por isso, é preciso dizê-lo: o sionismo é um fascismo.
Israel é a sobreposição catastrófica de toda esta herança imperialista e colonialista do Ocidente, mas é também o fiel depositário do fascismo, de uma política, propriamente ocidental, que mergulhou nas profundezas e na força identificadora e extática do mito não apenas para inventar a ficção de um Estado-Nação e de um povo sobre-humanizado, mas para fazer desse Estado-Nação um dispositivo escatológico e salvífico desse povo, continuamente alimentado pela força catastrófica da realização de si mesmo como mito.
Se o nazismo fez da raça, o ariano, o seu mito, o sionismo ou, antes, o israelismo, fez do judaísmo o seu mito de Estado: nacionalizou a própria religião, nacionalizou o judaísmo, ao reivindicar o fim do exílio e o regresso a uma terra prometida que, na verdade, nunca foi para o judaísmo um lugar geográfico nem terreno, mas alegórico e espiritual.
Quando a política seculariza o messianismo só há apenas um destino: a catástrofe. Foi essa a lição do nazismo. É essa a lição que hoje o israelismo nos traz, uma vez mais.
Pedro Levi Bismarck (Praia da Granja, 1983) é licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Estudou e trabalhou em Berlim durante dois anos. Escreve regularmente para revistas e magazines online. Organizou a co-organizou diversas iniciativas no âmbito da arquitectura, cidade e cultura urbana. Trabalha e vive no Porto, onde está actualmente a preparar o seu doutoramento.





O mito nazista de Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy contém uma pesquisa sobre a ideologia nazista, cujo núcleo é localizado no racismo. A base dessa ideologia foi a “identificação mítica”: “o mito, como a obra de arte que o explora, é um instrumento de identificação. Ele é mesmo o instrumento mimético por excelência”, escrevem os autores. Esse mimetismo, exige certos tipos (modelos) que devem garantir a construção da identidade. No caso da Alemanha essa construção se deu em oposição às nações “já formadas” como a França e a Itália (apesar de sua unificação tardia). O específico da Alemanha consistiu, segundo os autores, na sua identificação com uma Grécia mítica/mística que teria sido “descoberta” por autores alemães no final do século XVIII (em oposição à Grécia “clássica” italiana e francesa) e apresentada como o tipo a ser imitado. É claro que Lacoue-Labarthe e Nancy são extremamente cuidadosos ao apresentar essa tese: para eles o nazismo não deve ser simplesmente identificado com as obras de Kant, Fichte, Hölderlin ou Nietzsche (todos pensadores solicitados pelo nazismo) ou mesmo com o músico Wagner, assim como o Gulag não está em Hegel ou em Marx.
A tese da origem estética do mito nazista, desse mito como a busca de uma ontotipologia, de um corpo primeiro de onde o corpo do “povo alemão” teria descendido, é radicalizada por Philippe Lacoue-Labarthe no seu ensaio “O Espírito do Nacional-socialismo e o seu Destino”. Lacoue-Labarthe vai além do diagnóstico de Walter Benjamin que viu no nazismo a estetização da política e pregou então a politização da arte como resposta. O autor apresenta aqui, a partir de uma leitura de Heidegger, uma tese polêmica, ousada, segundo a qual haveria uma identidade entre a Estética e a concepção mesma de ontotipologia que estava na base do nazismo. 0 nazismo é revelado como concretização da ideologia Estética.
PHILIPPE LACOUE-LABARTHE (Tours, 6 de março de 1940 ― Paris, 27 de janeiro de 2007) foi um filósofo, crítico literário e tradutor francês. Labarthe foi professor de Estética na Universidade de Estrasburgo ― onde lecionou com Jean-Luc Nancy (amigo e colega com quem publicou diversas obras) ―, “homme de théâtre”, crítico e germanista francês, especialista do pensamento de Martin Heidegger, de Jacques Derrida e de Jacques Lacan, como também do romantismo alemão e de Paul Celan.
JEAN-LUC NANCY (Caudéran, 26 de julho de 1940), é um filósofo francês. A primeira obra de Nancy, Le titre de la lettre , publicada em 1973, é uma visão sobre o trabalho do psicanalista Jacques Lacan, escrita em conjunto com Philippe Lacoue-Labarthe. Suas maiores influências são Martin Heidegger, Jacques Derrida, Georges Bataille, Maurice Blanchot e Friedrich Nietzsche. É conhecido principalmente, por ter contribuído para o debate acerca do conceito de comunidade e da natureza do político. Nancy é professor emérito da Universidade de Estrasburgo.


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